Homenagem do Sempre Aluno Valério de Medeiros no 1° Café d'A livraria de 2017





A CARRUAGEM QUE ATRAVESSA…

Aconteceu num sábado. Eram vésperas de provas e do Festival de Artes no colégio, o que produzia um bulício peculiar nos corredores e uma ansiedade transparente no espelho das almas. Acredito que nos aproximávamos de novembro, mas a certeza, pelo tempo, já anda longe… As paredes grossas da escola, acostumadas ao silêncio dormente dos finais de semana, ouviam austeras o chilrear das arrumações para o evento. Ruídos dissonantes do prosaico farfalhar das árvores, naquelas tardes amenas acariciadas pelas brisas suaves de Natal.

Eu estava ali, e acompanhava o burburinho atentamente, num processo instigante e curioso: comprar os apetrechos para montar os imensos painéis, escolher os tecidos para o drapejado das instalações, definir os pincéis para revestir as madeiras, as cores, as tintas que por essa altura embaralham-se como memórias cromáticas na travessia dos anos. Os acessos à biblioteca haviam se transformado numa algazarra de oficinas para a produção das artes que adoçariam os espaços. Peças secavam ao sol repousadas nos guarda-corpos, enquanto outras afloravam ao compasso da serra, assumindo formas e volumes surpreendentes. Panos pendiam nos trincos das portas, ou acomodavam-se sobre as carteiras. Retalhos miúdos corriam travessos ao longo das quinas, rebrilhando o colorido com o vento ocasional.

Havia o artista-mor a conduzir o ateliê, afetado por arroubos inspiradiços: tal como um gênio em transe, transpirava um orgulho vertiginoso e sobranceiro. Por suas mãos as ideias dardejavam vivazmente, em ímpetos criativos e passionais. Entre ele e o aprendiz, estávamos nós, embevecidos e entusiasmados. Era um enredo: instantes de criação, e literatura.

Para o festival fora prevista a obra maior, sagrada: a carruagem das artes e do conhecimento. O veículo simbolizaria as maravilhas, pois era, em si, a substância da ambiência barroca e rebuscada. Repousaria na entrada do teatro, à esquerda da escadaria para a primeira plataforma.

Naquele preciso dia, já à noite, as peças estavam prontas, e o cheiro de cola e tinta recendia pelo átrio interno, inebriando as colunas altivas delicadamente debruçadas para o jardim. Tudo precisava seguir para a antessala do auditório, pois com rigor as partes seriam encaixadas, cerzindo a fábula de um cenário, que em minha imaginação era prodigioso!

Cuidadosamente, as faces da carruagem foram transportadas uma a uma, seguindo pela entrada do edifício que se orienta para o Portão de Seu Rafael, próximo à lanchonete. Os carregadores – e já era noite alta – prosseguiam adiante e nós acompanhávamos atrás. Eu me acreditava num cortejo fantástico daqueles que cortam a madrugada insone e afloram entremeando as pedras do passado deitadas na escuridão. Era uma aventura. E um delírio.

Estávamos a uns 50 metros das peças, que flutuavam na procissão das horas mortas. Mirávamos uma das bandas da carruagem a navegar na penumbra como uma barca esgueirando-se em mar tempestuoso, ondeando junto às vagas. Víamos as silhuetas das palmeiras rente ao acesso nobre do colégio, perto da Praça D. Pedro II: conversavam pavoneadas com a torre sineira da Igreja de São Pedro.

A certa altura, quando embicaram rumo ao auditório, a face da carruagem, num instante fugidio, mergulhou numa luz de prata, resplandecendo soberana na escuridão. Os douramentos preciosos brilharam por um momento, talvez por conta da lua cheia sublime a emergir além do debuxo esbelto da vegetação...

Após tantos anos, suspeito que aquele encontro entre claridade e fantasia, instância de conhecimento, tenha se cristalizada na memória porque contemplou a beleza da minha escola, em seus significados vastos. Ali estavam as fronteiras que eu queria conhecer, transportadas por aquelas rodas que ainda hoje trafegam em estradas longevas e imateriais. Aquele foi um tempo de tantos estímulos, passo seguro para o futuro e o que mais houvesse além da linha-do-mar.

Os anos da infância e da adolescência são uma época prolífica para estabelecer lastros e formar os adultos, tecendo as firmezas da fé, do feitio e da ética. No meu colégio, vivi muitas alegrias e enxergo as quão importantes foram as experiências enraizadas naquele menino fascinado pelas aulas.

Tenho saudades. Muitas e ternas saudades daquele lugar tão querido, dos meus professores e dos amigos. Tenho saudades das irmãs sempre atentas, serenas e tão marcantes. Dos livros juvenis que eu buscava nas prateleiras e lia avidamente. Dos lanches compartilhados sob as mangueiras vicejantes. Dos meses no centro cívico. Sinto falta das aulas de natação naquela piscina cor-do-céu – e isso me faz sentir o marejado que escorre pelas vistas das janelas altas, antigas, que ainda hoje miram sossegadas as ladeiras rumo a Cidade Alta. Queria retroceder àqueles anos, ouvindo os saberes dos mestres que me acompanham eternamente. Época quando os horizontes se assomavam a passos largos, tal como os miradouros vertendo panoramas pungentes.

Minha escola é como aquela carruagem lancinante que resplandece na noite larga e anuncia as alvíssaras, pois transporta a epifania, e o desvelo. Ali eu retorno à madrugada no sábado das lembranças, e mergulho mais uma vez no oceano de engenho, saber e arte. Ali eu navego em minha carruagem que atravessa as dunas altas e desaparece na foz-do-mar, adernando rumo às águas verdes do infinito.

E isso é esplêndido.

***

Parabéns, meu querido e inspirador Colégio das Neves! Fico feliz, extremamente feliz pelo aniversário de 80 anos. Sinto-me parte dele. Aí vivi alguns dos meus melhores anos e das mais intensas experiências para a construção de quem sou. Somos uma família, uma comunidade. Tenho orgulho em ser sempre-aluno, porque para o aprendizado não há limites.

Valério Medeiros
Oceano Atlântico, 20 de junho de 2012